A inteligência artificial e a conectividade total deixaram de ser promessas para o futuro e se consolidaram como a realidade do mercado brasileiro. Na última semana, o Distrito Anhembi, em São Paulo, foi o palco da Eletrolar Show All Connected 2026, a maior edição já realizada do evento. Reunindo mais de mil fabricantes e cerca de 5 mil marcas, a feira movimentou tecnologias que antecipam as transformações no varejo, na mobilidade e na vida doméstica, com um potencial de negócios que supera os R$ 2 bilhões.
O evento aconteceu em um momento estratégico para a indústria. Paralelamente aos lançamentos, a Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros) divulgou o balanço dos primeiros cinco meses do ano, revelando que o setor mantém uma trajetória de expansão estrutural. Entre janeiro e maio de 2026, o volume comercializado atingiu 53,6 milhões de unidades, o que representa uma alta de 11% em comparação com o mesmo período de 2025.

Robótica, IA e o futuro morar na prática
Quem passou pelos mais de 100 mil m² de exposição da Eletrolar Show testemunhou a IA incorporada diretamente aos produtos do dia a dia. Entre os destaques absolutos estava o Robot Park Experience, uma área inédita focada em automação e robótica. Na Arena Robot Park, robôs humanoides autônomos disputaram partidas diárias de futebol, utilizando visão computacional e inteligência artificial para tomar decisões em tempo real sem qualquer interferência humana.
A experiência do morar também ganhou forma na Casa All Connected. Com 300 m² e curadoria da neuroarquiteta Cris Paola, o ambiente integrou automação residencial, soluções de biofilia e recursos focados no bem-estar. No ecossistema da feira, os visitantes puderam conferir de perto televisores integrados ao ChatGPT, fechaduras com reconhecimento facial, nobreaks com Wi-Fi e Bluetooth, câmeras inteligentes capazes de monitorar animais e veículos, além de smartphones com câmeras desenvolvidas em parceria com a Leica e luminárias feitas em impressoras 3D com biomateriais.
Linha branca e portáteis impulsionam o mercado
Os dados apresentados pela Eletros confirmam que o interesse por inovação e praticidade doméstica tem sustentado as vendas, mesmo diante de um cenário econômico com juros elevados e orçamento familiar apertado. A linha branca apresentou um crescimento de 16% de janeiro a maio, somando 7,1 milhões de unidades vendidas. Esse avanço é impulsionado por um ciclo planejado de substituição de fogões, lavadoras e refrigeradores antigos por modelos novos, focados em eficiência energética e economia de água.
Já os portáteis continuam na liderança como o principal motor volumétrico do setor. A categoria, que engloba cerca de 40 tipos de produtos voltados para a cozinha e cuidados pessoais, teve uma expansão de 15%, alcançando 37,6 milhões de unidades comercializadas. Por possuir um tíquete médio menor, o segmento demonstra resiliência: o consumidor pode até trocar de marca para economizar, mas não deixa de adquirir itens que trazem conveniência e otimizam a rotina diária.
TVs e climatização
O segmento de televisores registrou uma evolução mais discreta, de 3%, somando 5,6 milhões de aparelhos vendidos. Segundo a entidade, o mercado de TVs passa por uma fase de maturidade, na qual o crescimento não ocorre pelo volume massivo, mas sim pelo valor agregado. O consumidor tem buscado telas maiores, resoluções mais altas e recursos de IA generativa para aprimorar a experiência de entretenimento, aproveitando o calendário de grandes eventos esportivos do ano.
Por outro lado, o setor de ar-condicionado enfrenta um período de forte acomodação. Após três anos de expansão expressiva provocada por fortes ondas de calor, as vendas de modelos split system recuaram 17% nos primeiros cinco meses de 2026, totalizando 2,4 milhões de unidades. O recuo é explicado pela combinação de temperaturas mais amenas e o encarecimento do crédito, fazendo com que a compra desse bem de maior valor fosse adiada.

A área de tecnologia da informação e comunicação (TIC), representada por monitores de vídeo, também passou por uma normalização, registrando queda de 13% (792 mil unidades). Como houve uma renovação intensa de equipamentos de informática nos últimos anos devido à digitalização do trabalho e estudo, o ciclo de substituição desses produtos naturalmente se tornou mais longo.
Projeções e os desafios do setor
Para o fechamento do primeiro semestre de 2026, a Eletros projeta que a indústria manterá o crescimento consolidado na casa dos dois dígitos, puxada principalmente pelo avanço estimado de 31% na linha portátil e de 12% na linha branca. Em contrapartida, as retrações devem se consolidar em torno de 17% em ar-condicionado e 11% em TIC, enquanto as TVs fecham com uma expectativa positiva de 2%.
Para garantir a sustentabilidade dessa expansão, a indústria defende a urgência de uma agenda voltada para a melhoria do ambiente de negócios. Entre os principais desafios mapeados estão o alto endividamento das famílias, o impacto das tarifas de importação sobre insumos globais e a necessidade de crédito mais acessível. Além disso, a implementação de políticas públicas que estimulem a troca de eletrodomésticos antigos por versões mais eficientes surge como uma oportunidade mútua: reduz os custos das contas das famílias, poupa recursos ambientais e impulsiona a produção nacional.
Fotos: divulgação/Lucas Sousa – Uehara Foto e Vídeo













































